sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O POÇO

O primeiro mistério
era conseguir abrir
a tampa do algibe.
O grito media mais
de trinta metros.
E todo ano o menino
descia por uma corrente
que cantava como
esses grilhões que são
arrastados em filmes
Noir. O poço secava,
e sua tarefa de achar
novas nascentes
no fundo que sempre
aumentava, trazia
esqueletos de peixes
que seu pai lhe designava
leva-los para filtrar a água
dos insetos. Todas as
canções vinham roucas no
fundo. Sua mãe, tia Alcina,
tio Ismael, a prima Neusa,
dona Judite e as ladainhas
religiosas, a farra dos irmãos.
Enquanto escavava ouvia
ainda tio Isaías recriminando
o irmão que se acontecesse
algo...mas na doce ilusão
do menino, o máximo era
encontrar um outro país.
Uma gente diferente que
falasse outra língua, mas que
soubesse dançar. Dobraria
uma esquina num até logo...
Mas certamente voltaria,
as canções de roda, de pega-
pega, o banho no tacho com
as meninas mais velhas ao lado
de sua casa, na água renovada
do poço outrora seco, ah, todo
esse estribilho para a fuga
completa da razão...

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