sábado, 15 de agosto de 2015

VILAREJO - O PARTO

A parteira se anicha entre as pernas da jovem. Tanta dor, mas por medo esta se recusa a gritar. Naqueles cafundós não havia medicina. No pequeno quarto, outras mulheres incentivavam: respire fundo, força, respire, força, força...inútil. A criança atravessada. O tempo contra mãe e filho. Num canto, o berço tosco de madeira do agreste, alguns bordados, fraldas de pano ordinário. O pai invade o quarto com um revólver e uma faca.
Ordena que todas se recostem na parede.Sem hesitar atira na cabeça da pobre. Rasga-lhe o baixo-ventre e retira o filho. Corta o cordão umbilical. Pega-o pelos pés, açoita-lhe as nádegas com a lateral da faca até que este se anuncie. Sorri. Passa os olhos por todo o quarto. Entrega o filho à cunhada que auxiliava a parturiente, com a certeza do silêncio de tudo que ocorrera ali, naquela tarde.

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