sábado, 29 de agosto de 2015

EMPAREDADOS



Começou assim, pedindo que o pai comprasse latas de tinta para que deixasse as paredes sempre novas. Não perceberam que ele encadernava os insetos. Mas agora, ante os fatos, investigadores na velha casa tentando entendê-lo, perceberam que outros sem asas também faziam parte do acervo. Não era a esposa que tinha sumido, mas todos os ex-namorados. Assim, a polícia derrubou paredes de tijolos duplos da sua nova casa alguns meses depois do seu casamento. Os federais convidados, assombrados com a técnica de mumificação e encolhimento dos corpos emparedados, que conservavam as características originais.

ANTES DO ARREBOL





Os galos nos primeiros
ensaios, 
prestes a anunciar as veredas
de outros bichos,
dão demonstrações de que o
poeta e o seu grafite
não tinham mais muito tempo
para alumbramentos.
O carvão como um gatilho,
advertindo seu dono,
para que sua mãe deixasse
de pedalar a velha Vigorelli.
Nenhum barulho era
permitido nesse momento,
onde asas habitavam aquela
cachimônia
estranhamente carecida
deste fole,
para arejar os últimos minutos
de eternidade
antes do arrebol.

TREVAS ILUMINADAS



Os galhos riscando a vidraria,
os gatos num namoro enlouquecido
em cima do telhado.
À porta de meu quarto minha pobre vó
mandando eu apagar a luz
que há muito está queimada.
Pobre vozinha, as vezes quer se juntar
a mim debaixo da cama.
Mas sei que sua sombra está lacrada
atrás da porta, ainda querendo brincar de
esconde-esconde. Ela, o "pegue", contando
sem parar. Desisto e vou atrás dizendo
que só conte até cinquenta. Me esqueço
que só conhece a primeira dezena, e aí
repete, repete, com vergonha de ser
descoberta. Mas como vozinha? se um dia
eu ainda nas primeiras letras, te peguei me
contando Robinson Crusoé em quadrinhos
de cabeça para baixo?

NO MANICÔMIO

-Ela ri, ri do quê?
-Do que você está falando?
-Da hiena.
-Onde? ah essa do filme?
sei lá, ri, ri somente, precisa
de um motivo?
-Precisa, isso de rir à toa, é
coisa de demente.
-Mas o riso não é melhor
do que o choro?
-Preste atenção no riso,
é um riso de escárnio,
parece que sabe do sofrimento
da gente, que quer aguilhoar
bem fundo, sabe que não há
remédio, como um lacre sobre
nosso caixão, esse riso intermitente.
Quando a gente pensa que parou,
lá vem ela de novo, como uma
febre terçã.
-Ainda bem que é só um filme né?
imagina ela no teu quarto, assim já
te perturbou bastante.
-Venha até o meu quarto, além do
fantasma dela, que dorme comigo,
há o fio da agulha de uma vitrola
num long-play rindo embaixo da cama,
desliga, desliga
por favor.
Elias Borges

LAGOA ITATIAIA

Todas as aves aprenderam a biguar
no fundo da lagoa, num trabalho secreto
de sondagem para espionar o jacaré
intruso e solitário, que anda espalhando
que vai buscar companheira no lago do amor.
Elias Borges 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O VELADOR

Um archote de macela-galega
embebido no alcatrão da hulha,
arde como luz vermelha.
No breu em que estou metido,
na barcarola sem rumo,
seu farol, minha candeia.


O BIÓGRAFO

Biografas como quem
psicografa com a caneta 
daquele que deixou de escrever, 
entrando em seus aposentos pé 
ante pé, ouvindo suas últimas 
predileções. Biografas como 
quem se deita na cama do 
biografado assim que ele se 
levanta. Sabes do oposto de viver. 
Todas as cifras te povoam. 
Por isso velas de tal forma que teu 
archote não se apaga. Biografas 
usando o balão de oxigênio do 
moribundo que parte. Biografas 
por osmose, tens um código inato, 
um morse irresolúvel para o nosso 
próprio bem. Em ti, tudo é overdose.

sábado, 15 de agosto de 2015

ÁLIBI

Esperou a data pacientemente. Agora, entrada de ano novo, meia-noite em ponto, adquiriu coragem com o pipocar dos fogos. A espingarda de caça, com enormes cartuchos pôs fim a barulheira.

FESTA NA CASA DO PRIMO RICO

Depois de cinco doses Caubói de um legítimo quinze anos, ele já era solteiro e estava na terceira tentativa frustrada dum enlace com as putas convidadas.

O AMOR EM BRAILE

Sua possante voz encantava homens e emocionava lenços de mulheres. Sem visão, era conduzido ao palco por sua amada, que tinha todos os dias o corpo folheado em braile.

AMIGOS?

- Essa coisa da gente não lembrar do nome das coisas, essa impossibilidade de nomear...
- Falta de memória você quer dizer?
- Isso, a cada dia que passa sinto que está piorando, como é mesmo o nome disso? Parkinson?
- Só se você estiver falando dessa tremedeira na sua língua, falta de memória é outar coisa.
- Tremedeira na língua?
- É claro que estou brincando, me referindo apenas a sua falta de articulação, mas isso é temporário, talvez estresse por causa de alguma perturbação ocasional. Mas entenda que isso não é exclusividade sua, todos estão assim por causa dos dias que estamos vivendo no nosso país. O barco está afundando. Mas se pensa que está com...com... com...Alzheimer, é isso, uma doença que degenera células cerebrais, existem exames que a diagnosticam. Vou te dar uma força como amigo, que tal irmos juntos ao médico e pedirmos ambos esses exames? 
- Faria isso por mim Genésio?
- Almeida, não sou o Genésio, sou o...o...o...Arthur.
- Não sou o Almeida, sou o...o...o...mas Arthur, nós somos amigos?


LUA AZUL

Grávida assim
duas vezes no
mesmo mês?
Tanta prenhez
cerzindo
poemas, 
recolhendo namorados 
perdidos aqui e ali.
Nem todas as juras
foram ditas, nem
todas as
promessas cumpridas.
E ainda assim pesadona
delata armadilhas escondidas
em cada rosa esculpida
dos mais fieis aguilhões.
É fiel cupida nas
mais altas horas, mesmo
quando o relógio já 
com preguiça anuncia:
Ei, está na hora de dormir!


BELO / DOLORIDO

Primeiro,
suspenso nas memórias
de minha infância.
Hoje nas incertezas
de tuas reticências,
preso no verbo dos 
teus incisivos, à beira
de um abismo que
não permite atas,
processos nem registros.
Com os olhos acesos,
os sonhos, talvez solucionados.


O SILÊNCIO É UMA NAVALHA

(monólogo de um louco)
As palavras podem ser 
um perigo. Principalmente
aquelas que não queríamos 
dizer e que saem num escorregão
por entre os incisivos, porque os
molares não fizeram a tarefa de
triturá-las a contento. E machucam,
mas aí me pergunto: o silêncio não
seria pior para quem já está no 
cadafalso e precisa veementemente 
ouvir algo que a restabeleça? Mas 
se você está dizendo que estou lhe
dirigindo palavras inoportunas e sei 
que estou mudo, é porque talvez esteja 
precisando ouvir o que imagina que 
estou dizendo. Sua carência é evidente.
Boa sorte, talvez apareça alguém com
a bandagem certa e consiga estancar
sua hemorragia.


UFC COMBATE

No octógono, quase finalzinho do combate, ninguém podia contar muita vantagem. Era um açougue com carne de segunda. Sobre um deles se ouvia: acém homens batendo em sua cara. Sobre o outro: agulha nenhuma consegue costurar esse rosto.


DESAFIANDO EPICURO

Um pedido estranho, mas não para o filho que sabia da grande produção do pai. Que fizesse um perfil póstumo e continuasse a atualizá-lo. Tinha uma concepção sobre a ressignificação do luto. Se precisasse ser sustentado no campo da linguagem depois de morto, que o fosse pelo poder da tecnologia, para desafiar a máxima: quando estamos na vida, não estamos na morte, e quando na morte, não vivemos.


COMPAIXÃO PELA ALEGRIA

O carrinho de lata de sardinha, rodas improvisadas com tampinhas de refrigerante, brincando na praça dos bacanas, onde na verdade dormiam os invisíveis. Logo apareceram outros de controle remoto, se gabando de já terem feito viagens espaciais. Acordam o banqueiro maneta que cobrava bem menos que o FMI para cuidar de uma instituição. Presenciando a maldade que aflora desde o berço, condoeu-se da alegria simples do garotinho perturbado. Abraçou-o do alto de sua sabedoria, fazendo-o entender que não entender, é que faz parte da vida.


TROTE FANTASMA III

Não deu outra, depois que apresentou seu tambor de hidromassagem à perna postiça dela, acabaram se casando.


EM CIMA DOS CAPRICHOS DE PAGANINI

O professor de música, ouvidos treinados, foi atraído para as cercanias da cracolândia. Avistou um jovem, cerca de vinte anos aproximadamente, modestamente vestido, executando flutuações nos [Caprichos] de Paganini, com um velho violino. Seus quarenta anos lecionando música como pianista, lhe deu a certeza de que as variações que ouvia eram inéditas. Foram quinze minutos de pura magia, em meio ao caos dos invisíveis. Não havia chapéu para receber por sua arte. Quando quis descer do carro para cercar o jovem, este já havia desaparecido.


DAVI

Ares de morbidez desde pequeno. Certa vez, ao passarem pelo aeroporto, os pais apreciando a decolagem de um 747, ouviram-no sussurrando: cai, cai, cai!

BODAS DE MADEIRA

Tão jovens, fugindo da má sorte. Consentem num pacto. Se beijam, se deitam. Ela, os olhos varados de ternura, ele...comovido de eternidade.


O PÃO-DURO

Amado, mesmo sabendo que antes do final do happy hour, ele dava um jeito de desaparecer. Avaro, nunca pagava conta nenhuma. Os amigos conformados, talvez porque ele fosse o grande animador e mecenas intelectual do grupo. No final de sua vida, descobrem mais uma coisa curiosa. Uma ordem para ser cremado. Explícito no testamento: negar aos vermes, o direito à qualquer proveito.

O SONÂMBULO

Um sono fabricado com as mais variadas substâncias. Assim dormia com cruéis fantasmas, e tinha medo que estes o guiassem em atrocidades que jamais passaram por sua cabeça enquanto acordado. Seguia à risca a recomendação de sua fisioterapeuta dormindo de decúbito lateral. Assim uma bolsa fabricada de tal forma que a chave da casa ficasse em seu espinhaço, dificultando o acesso às portas da casa enquanto estivesse dormindo.


APRENDENDO NO ESCURO

Tenho mais vida
para amar do que
a morte por perto.
No escuro o desafio
com um trevo 
para saber que peças
abandonas hoje. Te amar
assim, com uma nudez
parcial, organiza minhas
retinas na riqueza 
dos teus traços.

ZANGA NOTURNA

A solidão se retrata na gaiola que se abriu, na fuga deles que antes de se acostumarem partiram. Há um coro que insiste aos meus ouvidos mesmo assim, e tenho que nas altas madrugadas certificar-me de que não voltaram. Como tu, que mesmo não estando deixou sua zanga nos armários que rangem por toda à noite, constrangendo-me na incerteza de que não enlouqueci.

VOYEUR

No corpo
nu de todas
as noites,
há sempre
um outro
corpo escondido.

VILAREJO - O PARTO

A parteira se anicha entre as pernas da jovem. Tanta dor, mas por medo esta se recusa a gritar. Naqueles cafundós não havia medicina. No pequeno quarto, outras mulheres incentivavam: respire fundo, força, respire, força, força...inútil. A criança atravessada. O tempo contra mãe e filho. Num canto, o berço tosco de madeira do agreste, alguns bordados, fraldas de pano ordinário. O pai invade o quarto com um revólver e uma faca.
Ordena que todas se recostem na parede.Sem hesitar atira na cabeça da pobre. Rasga-lhe o baixo-ventre e retira o filho. Corta o cordão umbilical. Pega-o pelos pés, açoita-lhe as nádegas com a lateral da faca até que este se anuncie. Sorri. Passa os olhos por todo o quarto. Entrega o filho à cunhada que auxiliava a parturiente, com a certeza do silêncio de tudo que ocorrera ali, naquela tarde.

VIDENTE

Nutria o parco salário com essas apostas que rolam nos bastidores dos jornais. Corria na redação, que nunca errava na previsão do moribundo do dia seguinte, na seção de obituários. Desconheciam que a pretexto de orar pelos pacientes, tinha livre acesso aos quartos do único hospital da cidade.

VERBORRAGIA

Manhãzinha,
o soalho
da tua voz
verbo solto.
Meus olhos
surdos
teimando
sobre teu
corpo.

UMA CRONIQUETA COM PRETENSÃO DE CONTINHO O PASSEIO

No caminho, o que conta, não é chegar rápido, é a paisagem preguiçosa, alegre, a companheira do lado na boleia, os filhos no banco traseiro. O caminhão atrás chegando no mesmo restaurante, todos se fazendo amigos. Os rostos afogueados pelo calor, agora tem água fresca, calmaria, e a lembrança indolente de que deixaram as pratarias do dia anterior na pia, para quando voltassem. Na frente, o mar. A brisa salgada salivando o apetite para o piquenique de logo mais. Um cardápio frugal no restaurante, pão com queijo branco e frutas. Pensavam no melhor para quando chegassem, os caiçaras com seu caranguejos, a cesta preparada pela mãe atiçando a curiosidade do casal de filhos. Dentro do caminhão novamente. De repente, uma chuva fina e passageira. O sol inclemente do meio dia querendo apagar da memória o chuvisco de verão, levantando poeira que cintilam como grãos de ouro dentro do arco-iris. A lassidão se apoderando dos corpos. Passam por casas simples, o varal imenso com roupas que denunciam o sono tranquilo daquela noite. Num olhar de cumplicidade vão percebendo que não é o destino o mais importante. O contentamento é o estarem juntos, se bebendo, as vezes cerrando os olhos tamanha a claridade, mas nunca só se vendo, se olhando, pois isto, é muito pouco.

UMA CANÇÃO PARA NATHAN

A inquietude da criatura
à época de uma sazão.
Céu em chamas acolhe turbilhão.
De emboscada à alvorada.
Gritaria de asas em bandos.
Longe o coaxar do sapo-ferreiro
anuncia precipitação.
Pegadas no beiço do rio
à um braço do mar.

Curiosa a criatura mergulha.
Carona de Aruanã apascenta
seus mitos. Emerge.
Caminheira de senda.
Su'alma pronta acolhe a tormenta,
vadia...sem destino.

UM LAUDO

da previdência afirmava que estava morto. Há tempos não recebia seus proventos. Contestava-o enlouquecido, mesmo parecendo agora, que não estava tão vivo assim.

UM CÂNTARO PARA MEU AMADO

Viveu à sombra dele.
Debaixo de um silêncio
medido pela sua batuta de escritor.
Ele, monossilábico. Com o tempo,
aprenderam um com o outro,
a se comunicar com bolhas de
notas musicais, que na casa se
ouvia baixinho.
Cada dia sempre a mesma música,
que se repetia repetia como uma
tragédia grega. O porto era dele,
ela só o que queria, uma pausa
em toda aquela serenidade.
À maçaneta da porta,
nenhuma visita. Mas eis, descobriu
que quando dormia, vagava dentro
e fora do sono, e era receptora
de convivas alegres e falantes.
Debutante na arte de acolher,
nunca sabia o que oferecer.
Com o tempo, aprendeu a ser gentil,
oferecer em tigelas de prata, os
confeitos mais mimosos, com chá,
à moda dos ingleses. Foi assim,
quebrando o interposto entre eles.
Outras músicas, estilos
poéticos, filosóficos.
Ele que morria lentamente, foi
santificado. Seus deuses pagãos,
com a divindade dela. A urna
com as orações, o cântaro com
poções de manhãzinha, a
partilha do pão, em comunhão.
Oh apoteose dos sentidos. Tudo
conseguido, com os olhos bem fechados.

UM BAILADO

De Quintana
lanternas chinesas,
antes que queimem seus passos
nas estrelas acesas
e se percam seus rastros de bailarina.

TROTE FANTASMA II

Um sono agitado, cheio de pesadelos após a cirurgia. Acordava gritando com a impressão de que tudo estava como antes. Pagara muito caro pela intervenção, e aquela sensação de uma vigorosa ereção o apavorava, mas só até o momento que punha as mãos entre as pernas, percebendo que agora era uma linda mulher.

TROTE FANTASMA

TROTE FANTASMA
Num acidente automobilístico, as sequelas levaram-no a fazer fisioterapia. Gravidade numa das pernas, trombose, amputação. Nunca deixou de sentir o membro perdido. Viram-no certo dia fazendo terapia em casa, no tambor de hidromassagem, na perna postiça.

TRISTE POEMETO DE HOSPITAL

Branco pálido.
Inanimados convidam
descorados.
Aquela que rasteja
nos corredores
ocultando seu mortífero
cutelo,
ronda dia e noite.
Entoando canções
para o sono,
impingindo silente martírio
às criaturas tísicas.
Aninhando obstinados
em seus braços
com sua imensa fome
carnívora.
Exalando odores,
iludindo...
com seu futuro

inexorável de cinzas.

TRAPAÇA

Minha mãe
procura na
gaveta uma certidão
amarela de todas
as bodas que não
tivera.
Na fresta da janela
um fio de vento
grita ao santo e
às velas,
que devolvam
toda promessa
ludibriada.

TODOS OS DIAS

levava uma surra do pai. Já estava há três anos no primeiro ano, e não conseguia aprender a ler. Descontava a violência nos colegas da escola, em todos, pois não conseguia enxergar direito, qual deles zoava mais

TOCAIA

Tinha na mira os dois. Na posição em que estavam, ideal para um único disparo. Pensou depois de tanto tempo tentando um flagrante, que os ordinários não valiam mais que uma bala.

TIMIDEZ II

(para corujinha)
Seus olhos
se escondem,
eu os
namoro,
disfarçam,
não ocultam
meus
passos.

Quatro
lados do
poema.

TÍMIDA

De tão
tímida
disse:
te beijo,
antes,
apague
o sol.

TERROR

Cardíaco. Sem se cuidar, depois de pesada refeição, dormia o
sono dos incautos. Sonhava que era um rei falido, Luís XVI, e que
os Estados Gerais e o Parlamento francês, não lhe pagavam mais
impostos. Nos seus pesados devaneios, a única que mostrava
fidelidade, era sua extravagante esposa, Maria Antonieta.
A Assembléia Nacional, julgou-os traidores. Jogados na bastilha,
aguardaram o dia fatídico. Robespierre não teve pena, entre
os dois montantes verticais, no patíbulo, a pesada lâmina desceu.
Um grito. Maria acordou assustada. Fiel companheira nos últimos
trinta anos, colou ouvido ao coração do marido teimoso, que protelava
visita aos médicos. Não batia mais.

TENTAÇÃO

Passa todos os dias na rua, mesmo horário, roupas exíguas. Um dia, o cafajeste em voz baixa: te amarro de cabeça para baixo! Não é que ela ouviu? argumenta: não curtes um papai mamãe?

TEMEI ...

o céu
todo escovado.
Feridas abertas
com o fogo do azeite,
dos cachimbos das máquinas.

TÁ, DEFLORADOR?

Bundinha em riste em cima dos saltos altos. Prometi que seria assim sua primeira vez. De joelhos beijo o triângulo de pelos, numa onda de gemidos incontidos. Os peitinhos, cada um apontando para uma estrela binaria. E "ele", maldito, apontando para as profundezas do inferno.

SUSHI

De costas um pro outro. Ele não aguentava mais o discurso repetitivo. Principalmente que faltava tudo naquela casa. De fato não comeram nada naquele dia. Mas fez questão de servir um copo d'água com todas as gotas que ela usava parcimoniosamente todas as noites para dormir. Pouco depois servia-se duma língua com o pouco tempero que ainda havia, que era como mais gostava de degustar tudo que comia. Cortou na raiz, fundo, que é onde se armazenam as células sensoriais responsáveis pelos estímulos amargos. Talvez assim entendesse como aquele ser habitava com tanta facilidade o picante, o acre, o apimentado, o azedo e o amargo.

SUMIDOURO

Sei que não há volta. A passagem estreita e alongada
leva ao corpo de poema. Estou inexoravelmente
amarrado ao cordão umbilical. Costuraram minha
pele nas galerias da noite. Aqui os versos voam cegos
e minha tarefa é livrá-los dessa clausura. Girassóis a
procura de Van Gogh.

SOU UM HOMEM

escorraçado dentro
de minha pátria.
Estou cansado
de ser pássaro.
De partir a cada
estação. Queria
uma pátria onde
não me fizessem
rejeitado,
onde não sofresse
os açoites com
soluços de calabouço,
e pudesse usar minhas
asas, flanando
para lugar nenhum.

SOU...

Tão dentro
onde não alcanço,
por fora às vezes em sonho.

SOLILÓQUIO

Um postigo
escancarado
e a porta
entreaberta.
[Um portão e
um antigo ferrolho,
o último
empecilho]

para a
definitiva
conversa
com a
própria voz.

SETE VIDAS

Desta vez, seu último desejo foi ter um celular com carga total dentro do caixão, mais equipamento com oxigênio. Já havia sido enterrado, outras seis vezes.

SETE - COPAS

O menino
subia de copa
em copa, até
a última.
De cabeça
para baixo,
como um trapezista,
do alto dos
trinta metros da
"terminalia catappa",
deflorava a tarde
desmistificando
a erudição dos
pais, que chamavam
polução noturna
a nódoa no
lençol, que
lhe rendia toda
manhãzinha,
sete chibatadas.

SEM CASAMENTO

Nunca conseguia pegar o buquê ao final da festa de casamento. Começou a desconfiar, que era porque não tinha o dedo anular da mão esquerda.

SEGREDOS II

Todos os dias, leio um poema novo em suas curvas.

SEGREDOS

Por mais que a desnudasse, havia sempre uma surpresa no dia seguinte.

SILÊNCIO II

Na casa, somente ele, de um silêncio aterrador, e um gato de olhos interrogadores e andar sinuoso. Com aquele dono, desaprendeu a miar.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

RÉQUIEM PARA TODOS OS NOMES

Por um tempo
se habitaram.
Tão diferentes.
Não sabia
que a buscava.
Talvez nem quisesse
encontrar o objeto
de sua redenção.
E se amaram,
e na mesma proporção
as diferenças
os separaram.
Ele ceticismo, ela fé-
barroca. Ele labaredas,
ela imenso frio.
Havia tanta dor
naqueles olhos,
demasiado peso
para os próprios ombros,
e ainda assim...
tudo coube na cápsula
de uma agulha.
Visitou-a um pouco antes.
Época de vãs tentativas
em obter calor numa
centena de sóis diazepínicos.
Colou-se à sua boca,
único a entender
o dialeto balbuciado.
Respondeu na dicção
da alteridade,
sabia o quanto
ela desejava ser.
Mas soube ali,
com os discípulos
de Hipócrates,
entre azulejos brancos
e lençóis manchados
da sua exaustão.
Não havia como impedi-la.
Nem os Sermões
do Padre Vieira,
nem qualquer  cruzada santa
impediria o seu calvário.

Reprimindo um grito partiu,
sem norte... bússola louca.

RÉQUIEM PARA FRANCISCO FERNANDES DE CARVALHO

Forcei levantar-me
do leito. Este que
vai empreender
jornada na barca de
Caronte, é meu amigo.
Me disseram que estava
mal acomodado. Trouxe
prata para que ele não
vague por Aqueronte.
Um poeta não pode
partir assim. Não
respondi suas últimas
perguntas. O grande
amor pelo estudo do
que chamava ciências vãs...
Sócrates, Platão, Aristóteles...
quem responde a pergunta
do Nada? o filósofo nada diz,
mas sabe que o Nada, é coisa
nenhuma, e se é coisa...existe.
Será que conseguiu alguma
resposta? vejam como está
sereno. Leva consigo, para
contentamento dos seus,
pesadelos de quase um
século de vida. Todas as
hipotecas, notas promissórias,
cheques à vencer, cadernos de
apontamentos do sobrenatural.
A cabala não o ajudou a descobrir
os números da sorte, mas que
sorte tiveram os que ao seu
lado conviveram. Leva consigo
sonhos de criança, leves, brancos,
assim, Caronte levará sua barca
sem medo, pelo rio das inquietações.

Racha_dura II

Na pedra
da piscina.
Quarenta graus.
O grelo
na grelha.

De pé,
em minha
direção,
a hostia
v
e
r
t
i
c
a
l
i
z
a
d
a
batendo palmas.

Rachadura

Quando eu ainda
trocava os dentes
e tinha poucas letras,
já sofria pela rachadura
das meninas. Ainda tenho
os olhos varados pela beleza,
da primeira hostia verticalizada.

QUIROMANIA

O primeiro
poema,
revezando
as mãos.
O menino
arfa, animal
ferido, com
a foto da
primeira
musa.

QUERO TE FALAR DE POESIA

O poema perfeito é como um farol em noite nebulosa. O resgate de palavras frescas no almoxarifado de nosso escaninho, que educam lágrimas a escorrer o pó que asfixia. Perene em cada recôndito do cérebro, um lúcido mecanismo de hélices a nos guiar em águas revoltas.

QUEBRANDO O SILÊNCIO

Ele era um professor universitário. Seu silêncio não condizia muito com sua profissão. Talvez porque tivesse que ministrar tão e somente as aulas, isso não fosse barreira. Ela, uma aluna aplicada, apaixonada pelos clássicos americanos, e por ele. Totalmente extrovertida. Viu que se não tomasse a iniciativa, jamais seria reparada. E assim o fez. É claro que só se casaram, porque havia nela um sorriso entrando por todos os poros, que contagiava a todos. E veio o filho. Segundo escondidos rumores, mais silencioso ainda. Com o tempo, passaram a comunicar-se por meio de olhares. Ah, e havia o gato, de andar sinuoso e olhos interrogadores que desaprendera a miar. Quanto sossego. Achou que enlouqueceria. Foi aí que se lembrou de Poe, seu autor predileto. Dirigiu-se ao antiquário mais importante da cidade, e comprou o maior e mais belo relógio de pêndulo que havia. Agora, instalado na sala, o silêncio badalando, de hora em hora.

QUATROCENTONA CENTENÁRIA

Esticou tanto a vida que os mortos nunca faltavam à mesa das refeições.

PSICOLOGIA PARA AFASTAR O MEDO

Morri?
Minha luz
recusa-se
apagar.
Insisto num
porte, alheio
à morte,
mas estou
estendido
entre catres
de luto.
Persigo esta luz
como uma promessa.
Que ilumine
tantos caminhos,
afaste o medo,
abra janelas.

PROBLEMÃO

-Mas Jorge, ela é seu braço direito em tudo, no escritório, na casa, com o filho...
-É cara, mas nadinha de bunda meu!!!

PRESTANDO CONTAS

Num canto escuro da cela, a velha senhora conversava alto com alguém. O guarda ouviu quando ela disse: "Nossa missão era fazer o diabo. E tínhamos que ser perfeitos. Eu juro que tentei". O guarda aproxima-se. Com uma lanterna, bate na grade, anunciando que ia entrar. Arma em punho, pergunta: Com quem a senhora está falando? Ela aponta na quina da parede um rato, e finaliza: Não vê? estou falando com Deus!

POTOQUEIRO

Com ele, o namoro começava e terminava, sem que elas ficassem sabendo.

POSSESSÃO

Ficando eu
à meia-luz,
tuas pinceladas
capturaram-me
parcialmente.
Se continuasses
a pintar, obedecendo
eu à postura, que
epílogo obterias
de metade da criatura?

PIOR

solidão,
do que
a de um
poeta?

PASSAPORTE

Pensava que por não ter direitos políticos por quase uma vida, também jamais teria um passaporte. Mas o poeta está sempre viajando. As malas devem estar sempre prontas. Há um eterno reencontro com a poesia. E minhas viagens por esconsas trilhas, driblaram da maldita ditadura caminhos reservados apenas àqueles que abrem seus rastos, com pincéis que matizam rimas.

POR QUÊ ?

Porque este
queria tudo,
não conseguiu
resistir-lhe.
Foi entregando
seus anéis
e seus dedos.
Entregou-lhe
também sua
atenção e todos 

os seus segredos. 
Despiu-se
do seu passado,
sua genealogia,
seus antigos
amores. Por não
saber permanecer
inteira, perdeu-se.
Com ele foi morar,
à beira do precipício.

PONTO DE VISTA

Era do tipo que repetia repetia repetia. Alguns chamavam-no prolixo. Ele chamava-os, idiotas.

POEMA VIAGEIRO

Me lembro que em toda estação havia
moças com cestas de guloseimas
e sonhos cuidadosamente embalados.
A vontade de ficar para sempre em cada
cidadezinha. Esse coração vira-lata não
sabia o que queria. Também, cada olhar
implorando permanência mais que o outro.
Na adolescência lhes prometeram um
cavaleiro corajoso. O regate da vidinha
suburbana, algo além do magistério e das
danças sem graça nos salões do fundo
da paróquia. Parecia que à um aceno elas
pulariam no vagão sem olhar para trás.
Se soubessem que também eu com um
pouco mais de incentivo, com o aceno de
um joelho, de metade das coxas...ah essa
viagem que não tem bilhete de chegada.

PASSEIO NOTURNO

(para Brayan)

Quando o sol se põe
lá no fim do mundo
e que escure estes fundos,
os grande se recolhem
em seus redutos.
Os pequeninos
continuam acordados,
vislumbram os raios
de lua, que banham
vidraças dos seus quartos.
Num repente de fé
alçam voo. Voam sobre
casas grandes, sobre
negras chaminés.
As mais misteriosas
rasgam à noite
em direção as florestas,
e sobre a relva, na úmida
campina, brincam de esconde
esconde, com cucas e sacis.
E antes que as trevas se
dissipem e as vidraças
reluzam com o vermelho
que desperta a aurora,
retornam aos seus leitos
macios, sem ligar para
a avançada hora.

PARTINDO

Já estou deixando
minha velha casa.
As portas batem
anunciando: Ficarão
fantasmas. No quintal
crianças barulhentas
zumbindo. Nos corredores
um poeta cheio de insônia.
Num quarto repleto de silêncio
uma bela dormindo. Na
biblioteca, meus livros
e rabiscos de poemas sendo
folheados, Alan Poe
comandando, o interminável
festim macabro.

PARTILHA

Ficou na casa ao separar-se. O ex cônjuge levou tudo o que dizia pertencer-lhe. Maravilhado ficou com o eco da própria voz, que não ouvia há tempos.

PAREM O TREM, QUERO DESCER!

A hora é essa. Começa a falar-se que no executivo, no legislativo e no judiciário, com a ajuda de grupos midiáticos tentaram barrar investigações que apontam a corrupção de políticos brasileiros em áreas como licitações de obras, compras públicas, manipulações de títulos públicos, informações privilegiadas sobre câmbios e taxas, etc, etc. A operação lava-jato precisa ser levada a ferro e fogo doa a quem doer. Ao contrário do que querem nos fazer entender quem tem interesses escusos nisso tudo, a operação não vai inviabilizar o Brasil politicamente, pelo contrário, vai mostrar que somos um povo honrado e com vontade de limpar esse País da escória que vêm assaltando os cofres públicos, afinal é o nosso dinheiro suado e honesto que eles vem roubando.A lavagem de dinheiro e as formações de organizações criminosas transformou a Petrobras num balcão de negócios para abastecer partidos políticos. Alberto Youssef afirma que Lula e Dilma tinham conhecimento do desvio de dinheiro da Petrobras. Agora, o Ministério Público quer que os ladrões devolvam 1,5 bilhão de reais que roubaram. Como se vê, esse clube de propina estava muito bem montado e articulado. Que a polícia federal continue fazendo seu trabalho para que a operação lava-jato não seja desmoralizada.

PARA QUE ORIGEM?

É sempre você
quem me resgata
das horas que não dizem 

nada e das noites intermináveis
sem ruídos. Será que a
sobrevivência tem a ver
com isso? a questão insolúvel
do princípio de tudo?
Meus sábados moribundos...
os domingos sem mostrar os
dentes. Agora, todas as manhãs
atraem para o trabalho, as muralhas
mortiças vão ruindo para o marco
sagrado onde se retorna na busca
insaciável da origem. Talvez não
consigamos nunca. Cortar o cordão
umbilical que nos prende ao gênesis
nos tornaria maduros. Mas quantos
se dignam a sentir o cheiro pútrido
que revelaria falsificações, mentiras
e lacunas? O mito fundador cansado
não se sustenta mais. Não se assuste
se um dia, tensionado entre dois
extremos, nosso vigor ditar que
não há mais espaço para abstrações
que levam à erosão do homem criança.
Nossa vaidade, talvez seja a
única resposta à explicação,
da fábrica do universo.

PARA SEMPRE

Volta e meia passava pela rua onde fora criado. Uma necessidade visceral o movia. Quarenta anos assim. Dessa vez ao perceber que a casa era só ruínas compreende. Continuava habitando cada peça, cada aposento. Mesmo nos escombros, dentro. Os pais ralhando com os irmãos mais novos para cessarem a correria, eles insistindo com a brincadeira de pique-pega 1, ignorando o almoço. Ele e os irmãos mais novos dividindo uma velha cama de casal num colchão de capim. O calor gostoso continuava invadindo seu peito. Agora aquela placa de venda, não titubeia, anota o telefone.

PALCO

As vezes a palavra provoca fratura seguida dum intenso
silêncio. O apetite ilimitado pela mudança, nos move a
desconfiarmos de nosso próprio julgamento.
O que dá conta dos modos?
Reanimam sempre o velho cadáver, vendem-no como
se fosse o espetáculo mais recente e autêntico do grande
circo. Mas carecem de sinceridade. Nosso afrouxamento
em lidar com isso só piora.
Que falso delírio é esse de achar que há proteção dos
medos que nos sobressaltam, nessas câmeras que nos
induzem à aplaudir quem está sempre pedindo louvor?

PAISAGEM DE SAL

(Uma homenagem aos nossos professores)

Pobre sala,
ruindo a cal
da parede.
O calor
embebedando
o sonho
desses meninos.
O verbo não cala,
e o operário da
linguagem não
pleiteia aplausos.
Seu canto sonoro
pena numa paisagem
de poeira, cavoucando
mistérios todos os dias.

PACIENTE ESPERA

Desejo
moendo
meu peito
sem teu
beijo...
Moendo
a noite.

OLÍMPIA

Depois
do amor
sobre
meu corpo
lânguido,
era uma
puta
de Manet.
Me disse:
Do jeito
como olha,
dá vontade
de botar
um ovo.

OLHINHOS

Naquela manhã, faxina numa oficina. Um bico, segundo ele, para um baseado e um marmitex. Além da limpeza, contou ao velho senhor as peripécias dos seus poucos anos de vida para sobreviver. Ao término, ganhou banho, roupas, comida e alguns trocados subtraídos de uma pequena gaveta. Voltou na sombra da noite. Galgou o muro. Azar com o barulho do pulo e o sono leve do velho, que atirou, sem divisar na escuridão a frágil figura que tanto o comovera naquele dia.

OLHOS DE CÃO

Para um certo tipo de tratamento, tinha de levá-la longe duas vezes na semana, ao Centro de Atenção Psicossocial. Nunca acertava o caminho. Era ela quem o orientava, a menos que quisessem ficar dando voltas inúteis com o veículo pelo caminho.

O SUICIDA

Por anos a fio ocultou os remédios da esposa. Ainda assim, várias vezes com ela no hospital. Desesperado, já não havia onde escondê-los. Tomou-os todos.

O RETORNO

Na volta de uma guerra por uma pátria estranha, (fora recrutado à revelia, sem poder se esquivar por ali estar trabalhando), pasmou os que pensavam estar ele morto. A noite enterrada nos olhos, e aquela expressão indefinida de quem tudo, e nada viu. Veio com a morte dentro, isso não podiam negar. O capote surrado com as medalhas, permitiam que vissem o peso nos ombros. O único filho na impubescência, lia tristes poemas nos gestos do pai. Viu em seus coturnos, que sofria de penínsulas, e passos flanando para lugar nenhum. Que um dia fora recolhido no campo de batalha como destroço. E agora, depois do banho, na pele do genitor, uma máquina de dor que o filho não discernia ser analógica ou digital, tal e qual um robô que mensura grandezas físicas, contínuas ou lineares latejando rudemente, o indivíduo se protegendo da aniquilação... eis como sobrevivera.

O PRIMO POBRE

Famoso por não capotar após inúmeras caipirinhas. Ao final da visita, visivelmente de porre, confessa ao primo esnobe: Obrigado pelo uísque, essa cachaça metida a besta.

O POETA E AS DUAS MILHAS

O poeta corria da dor, todos os dias.
Duas milhas cheias de curva.
Era esse o tratamento
que os doutos lhe impuseram,
nunca desistir, correr sempre
para amainar a falta,
que lhe fazia um certo amor.
Um dia, muito cansado se deitou.
Dormiu numa curva.
Um auto que desenfreado corria,
tinha no seu dono contrariamente fugir,
de quem tanto lhe importunava,
dizendo ser o seu amor.
Mas isto ele não reconhecia,
tão adversos na forma de sentir,
e encarar o referido amor.
Ah sortilégio, trama, maquinação.
O auto abalroa,
se espatifa na curva, por cima do poeta.
Seu dono ao lado dele,
olhos marejados tentando entender,
os contornos desse amor.

Uma serpenteante saudade,
das caminhadas e corridas,
do poeta e do fugidor.

O POETA

Nasci num campão que quase não tinha dono ainda.
Uma alma inquieta acabou por me transformar num trovador.
Meu canto é triste, mas a mim isso não importa, vou cantando
como alguém que sabe que vai morrer, mas enquanto não me
apontam o barco da grande travessia, vou espalhando meus
enredos de estilo dolente, não se esqueçam, sou um bardo,
e espalhar dengo, é o que melhor aprendi a fazer.

O POEMA QUE

hoje me invadiu,
está amarrado
à dor de ontem.

O POEMA E AS QUATRO MILHAS

O poema corria
da dor, todos os
dias. Quatro milhas
cheias de curva.
Era esse o
tratamento que
os doutos lhe
impuseram, nunca
desistir, correr
sempre para
amainar a falta,
que lhe fazia um certo
amor. Um dia, muito
cansado, deitou.
Dormiu numa curva,
do corredor.
Um auto que também
corria, tinha no seu
dono contrariamente
fugir, de quem tanto
lhe importunava,
dizendo ser o seu amor.
Isto ele não reconhecia,
tão adversos eram na forma
de sentir, e encarar o dito amor.
Ah sortilégio, trama, maquinação,
o auto abalroa, se
espatifa na curva, por
cima do poema.
Cai seu dono ao lado
dele, que adormecera
com os olhos marejados,
tentando reconciliar
com silêncios e lágrimas,
os contornos deste amor.

Uma serpenteante
saudade, das longas
milhas do poema,
e das corridas, do fugidor.

O POEMA

dentro,
escondido,
no interior,
no casulo
do olho.
Escava,
escava,
tira
do
sepulcro,
arrasta
a pedra.
(para nosso Senhor)

O POEMA

entardeceu dentro
dos olhos
de minha
amada.
Neles, assisti
o mais lindo poente.

O POÇO

O primeiro mistério
era conseguir abrir
a tampa do algibe.
O grito media mais
de trinta metros.
E todo ano o menino
descia por uma corrente
que cantava como
esses grilhões que são
arrastados em filmes
Noir. O poço secava,
e sua tarefa de achar
novas nascentes
no fundo que sempre
aumentava, trazia
esqueletos de peixes
que seu pai lhe designava
leva-los para filtrar a água
dos insetos. Todas as
canções vinham roucas no
fundo. Sua mãe, tia Alcina,
tio Ismael, a prima Neusa,
dona Judite e as ladainhas
religiosas, a farra dos irmãos.
Enquanto escavava ouvia
ainda tio Isaías recriminando
o irmão que se acontecesse
algo...mas na doce ilusão
do menino, o máximo era
encontrar um outro país.
Uma gente diferente que
falasse outra língua, mas que
soubesse dançar. Dobraria
uma esquina num até logo...
Mas certamente voltaria,
as canções de roda, de pega-
pega, o banho no tacho com
as meninas mais velhas ao lado
de sua casa, na água renovada
do poço outrora seco, ah, todo
esse estribilho para a fuga
completa da razão...

O PACTO

A família contra o casamento, eles jovens apaixonados, sob o comando dos hormônios. Encontram-se todo final de tarde. Ao descobrirem que o pai vai mandá-la ao exterior na casa de parentes, decidem se matar. Na tarde combinada se encontram, amam-se com fervor esquecendo-se de tudo. Mas o revólver está ali, na frente de ambos. Ele pega a arma, examina o tambor...carregado. Se olham, um último beijo. Não hesita, dispara contra a cabeça. Ela pega o revólver, acaricia-o contra o peito como se fosse um objeto fálico. As lágrimas lustram o sangue incrustado no cano. Deposita-o na mesa. Pensa: viver é tão bom. E ademais, quem vai cuidar da criaturinha que trago no ventre?

O MENINO E O TREM

(para Nathan)
O menino morava perto dos trilhos. De dia, a passagem do trem era festa. Distribuía por um longo trecho pedrinhas na rolagem da via-férrea e se divertia vendo-as serem esmiuçadas. Da passarela de uma ponte próxima, pulava em cima dos vagões. Corria por cima deles, um a um, até o cruzamento que ficava a um quilômetro de sua casa. Quando estes diminuíam a velocidade, descia pelos degraus da escada de um dos vagões, que servia ao trabalho do seu operador.

De noite as coisas eram diferentes, hora em que as sensações eram estranhas, místicas. Aquele olho de fogo rasgando a noite, o grito... o vagido. Achava então que não devia duelar com o monstro, ou este descarrilaria. Pensava que o trem se mantinha nos trilhos por obra de sua compaixão, nutrida por um ser desprotegido que tateava entre as trevas. Ficava ali ouvindo o ronco, até que este se distanciasse um pouco mais, para daí correr até sua cama e, debaixo dos cobertores, continuar experimentando aquela sensação...de abandono.

O MARIDO

que amava sobremaneira sua esposa, e que tinha um casamento tranquilo, acabara de receber um envelope que continha fotos íntimas dela, com o de seu maior rival político. Adentra seu escritório, abre uma gaveta. Uma pistola carregada e uma garrafa de uísque. Encosta a arma na têmpora... guarda a pistola, abre a garrafa.

O JOGADOR

Jogador compulsivo. Perdera já quase tudo. Acreditava na máxima: sorte no amor, azar no jogo. E assim ia trocando trocando trocando, de amor.

O HIPOCONDRÍACO II

- Mas doutor, eu tomo todos os cuidados com o tipo de pessoas que me relaciono, como fui contrair essa doença? como é mesmo o nome? flatulência?

O HIPOCONDRÍACO

O doutor auscultando os pulmões do paciente pede que tussa várias vezes. Com o estetoscópio passeando pelas costas e por todo o tórax, solicita:
-Diga trinta e três.
-Trinta e três.
-De novo, trinta e três.
-Trinta e três.
-Agora fale mais de uma vez trinta e três. Umas três vezes.
-Trinta e três, trinta e três, trinta e três. Poxa doutor, não está ouvindo nada?
-Não, está tudo bem com o senhor.
-Bem nada doutor...vamos mudar de número: trinta e quatro, trinta e cinco, trinta e seis...

O FIM

O show fora um fiasco. Quem mais esperava não veio. Mesmo com a virtuose do seu pianista não atingira as notas perfeitas. Agora no camarim, diante do espelho, bate com os dedos na procura da frequência ideal. A emissão num crescendo, sons longos movimentando-se entre o grave e o mais agudo. Com o pescoço perto, muito perto do espelho, que se parte em mil. Todos os aplausos que não conseguira naquela noite.

O FILÓSOFO HIPOCONDRÍACO

Combinou assim com seu psicoterapeuta: Para cada livro de filosofia que lesse, uma nova bula de remédio como marcador de página.

O ENTERRO

Uma vida inteira de dedicação ao rebanho. No final, expressa que gostaria de ser enterrado no altar mor, numa lápide sob os pés do Cristo. O padre substituto, diante da figura incomum do sacerdote morto, desaprova, e providencia enterro num cemitério um tanto distante. O carro papa defunto emperra, e o pesado caixão do padre querido e comilão, impossível de ser carregado. As orações dos fiéis, mais fortes que a determinação do padre carrasco.

O COLECIONADOR

Furtava, mas devolvia as calcinhas que vestia os varais do residencial, sem o forrinho.

O BOM POEMA, É

como descascar
uma bergamota,
subtraindo-lhe
a casca muita
fina, com a gentileza
de não ferir-lhe
a polpa.

O ATRASADO

Detestava o termo "pontualidade inglesa". No dia mais importante da sua vida, a noiva desistiu de esperá-lo e saiu à francesa. Temporal, na tentativa de chegar ao enlace a tempo acidenta-se fatalmente no trânsito. No velório, ao final da cerimônia, anunciam os organizadores: Devido ao mau tempo e problemas com o jazigo, o corpo sairá com duas horas de atraso.

O ARTISTA

A apresentação fora um fiasco. Uns poucos gatos pingados na plateia. E ela que prometera vir, não o fez. No camarim, em frente ao espelho, todas as notas que não conseguira, mesmo com a virtuose do seu pianista. E num crescendo, num agudo, num crescendo, arrancou do espelho que em mil se espatifou, todos os aplausos que não obtivera durante à apresentação.

O APRESSADO

Compulsão, furava a fila para tudo. Cinema, estádios de futebol, postos de saúde, sopões comunitários, enterros de celebridades. Um dia, junto à uma escadaria numa catedral, numa enorme fila para receberem a hóstia, resolveu desafiar seu ateísmo. Furou-a. Na língua o ázimo, a vertigem. Rolou nos degraus. Furou a fila na seção de obituários do dia seguinte.

O ASSASSINO

( Nós fazemos a nossa vida da morte dos outros- Leonardo da Vinci )
Numa festa que vararia a noite, ele dançou com ela quase todo o tempo. A festa era para comemorar a abertura duma casa noturna, num belo bairro da cidade. As músicas selecionadas previamente pela banda agradavam em cheio. Por mais de uma vez esbarrou num sujeito, que agora percebia, encarava sua acompanhante. Uma jovem garota do bairro, que lhe despertara à atenção, ao ponto de tê-la convidado para a festa em que estavam. O sujeito era descarado, e continuou a desafiá-lo. Era notadamente mais velho que ele. Em um determinado momento, esbarrou-lhe, e tocou o corpo da garota. Como não era covarde, encarou e jogou-o de frente por sobre uma mesa, espatifando-a com as cadeiras. Imediatamente os seguranças tomaram conta da situação, colocando o baderneiro, que também identificado por outros com tal, fora do salão. Este foi embora, mas voltou. Postou-se atrás de uma enorme árvore que compunha o conjunto arquitetônico do prédio. Algumas estrelas ainda no céu, quando o jovem saiu com a bela que lhe propiciara uma noite maravilhosa. Em direção à porta do veículo, para que a jovem entrasse, foi interceptado. Um golpe certeiro no peito. O punhal cravado. A jovem, num instinto de sobrevivência, correu para os seguranças, que imediatamente imobilizaram o assassino.
Em poucos minutos, uma ambulância e um carro da polícia. O jovem levado as pressas, chegou sem vida ao serviço hospitalar de emergência. O assassino, preso em flagrante.
Passaram-se apenas quinze dias, até que um advogado convenceu o juiz, que este agira no calor de uma situação, que exigia que se defendesse. Tinha bons antecedentes, emprego, e uma residência fixa. Podia aguardar o julgamento em liberdade.
A família do jovem desolada. A mãe como ninguém. Entendeu que jamais fariam justiça ao seu filho. Tentou uma, duas, várias vezes o suicídio. Sempre socorrida às pressas, os médicos evitavam o pior. Numa das muitas audiências de comparecimento em que o assassino tinha que mostrar que continuava na cidade, depois de meses da tragédia, todos, no último andar do prédio forense. Contra a vontade da família, ela compareceu para ver de perto o algoz que destruíra sua vida. Terminada a audiência, ela com a família, e o advogado que contrataram para pressionar a justiça, no intuito de se fazer cumprir a lei. Depois do que ouvira na sala, compreendeu que suas esperanças estavam ancoradas num banco de areia. O marginal deixou a sala, acompanhado dos dois advogados que lhe prestavam suporte. A mãe, percebeu que iam deixar o prédio pelo elevador, evitando as escadarias que tinham formato de caracol, do quinto ao andar térreo. Numa fúria assustadora, correu e agarrou-se à criatura, projetando-se com a mesma sobre os corrimões, nos socavões dos cinco andares. Um silêncio de morte, apossou-se de todos.

(Isto é uma obra de ficção)