sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O MENINO E O TREM

(para Nathan)
O menino morava perto dos trilhos. De dia, a passagem do trem era festa. Distribuía por um longo trecho pedrinhas na rolagem da via-férrea e se divertia vendo-as serem esmiuçadas. Da passarela de uma ponte próxima, pulava em cima dos vagões. Corria por cima deles, um a um, até o cruzamento que ficava a um quilômetro de sua casa. Quando estes diminuíam a velocidade, descia pelos degraus da escada de um dos vagões, que servia ao trabalho do seu operador.

De noite as coisas eram diferentes, hora em que as sensações eram estranhas, místicas. Aquele olho de fogo rasgando a noite, o grito... o vagido. Achava então que não devia duelar com o monstro, ou este descarrilaria. Pensava que o trem se mantinha nos trilhos por obra de sua compaixão, nutrida por um ser desprotegido que tateava entre as trevas. Ficava ali ouvindo o ronco, até que este se distanciasse um pouco mais, para daí correr até sua cama e, debaixo dos cobertores, continuar experimentando aquela sensação...de abandono.

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