(para Nathan)
O menino morava perto dos trilhos. De dia, a passagem do trem
era festa. Distribuía por um longo trecho pedrinhas na rolagem da via-férrea e
se divertia vendo-as serem esmiuçadas. Da passarela de uma ponte próxima,
pulava em cima dos vagões. Corria por cima deles, um a um, até o cruzamento que
ficava a um quilômetro de sua casa. Quando estes diminuíam a velocidade, descia
pelos degraus da escada de um dos vagões, que servia ao trabalho do seu
operador.
De noite as coisas eram
diferentes, hora em que as sensações eram estranhas, místicas. Aquele olho de
fogo rasgando a noite, o grito... o vagido. Achava então que não devia duelar
com o monstro, ou este descarrilaria. Pensava que o trem se mantinha nos
trilhos por obra de sua compaixão, nutrida por um ser desprotegido que tateava
entre as trevas. Ficava ali ouvindo o ronco, até que este se distanciasse um
pouco mais, para daí correr até sua cama e, debaixo dos cobertores, continuar
experimentando aquela sensação...de abandono.
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